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Patrícia

Depoimento 1
 

Abril de 1992, 18 anos, 20 kg a mais, solteira e completamente perdida dentro de mim mesma. Essa é a frase que retrata o nascimento de meu primeiro filho, Bernardo, hoje com 10 anos de idade. Até hoje me ressinto muito da maneira como o tive, isto é, da forma como tudo aconteceu, mas após ler tantos depoimentos de outras mães neste site pude observar que nem tudo foi minha culpa.

O médico que me ‘acompanhou’ foi o mesmo que fez o parto da minha mãe e admito que nunca tive interesse de procurar outro, mais por puro medo. Medo de algo dar errado, mas meu Deus, será que ele fez tudo certo?
O pré-natal foi o que se poderia chamar de estéril, pois foram idas ao consultório onde as perguntas mais profundas que fazia ou ele não respondia ou ignorava. Talvez, por ser muito jovem e inexperiente, ele não me considerasse madura o suficiente para entender a complexidade de um parto. Infelizmente, não me interessei em combater essa atitude, pois a minha própria vida já estava confusa demais…

Não tive apoio emocional de ninguém na minha família, ao contrário, recebi muitos julgamentos e críticas e nem apoio por parte do pai do meu filho também. Principalmente emocional, pois não havíamos programado (ou sonhado) um filho naquela altura das nossas vidas. Estávamos noivos, mas ainda não havíamos sequer decidido onde morar, pois ele era de Porto Alegre e eu do Rio de Janeiro. Namorávamos à distância e assim mantínhamos o relacionamente que, justamente na época em que engravidei, estava praticamente terminado. Havia decidido terminar com o noivado e continuar meus estudos, mas nada disso aconteceu.

Sinceramente, como fui uma adolescente grávida, sei exatamente o que se passa com essas meninas recém saídas da infância que se deparam com um mundo de emoções novas e com o desejo de se conhecerem como mulheres. O que sentia não era amor, mas curiosidade. Parece estranho? Você se lembra dos seus 17 anos? Particularmente, foi uma época muito estranha da minha vida. E o nascimento do meu filho justamente nessa hora me fez uma pessoa melhor, hoje tenho certeza disso.

Acho que a ingenuidade deve ser combatida e a informação quanto ao sexo deve partir de dentro de casa, isso é responsabilidade dos pais! E não da TV, da mídia ou do Ministro da Saúde. Não tive orientação nenhuma nesse sentido. Minha mãe, que nunca mais teve outro relacionamento sério com um homem desde que separou de meu pai, nunca conversou séria e abertamente comigo a esse respeito. Posso dizer que nunca realmente conversamos nada sério antes de eu completar 27 anos de idade…

Sim, ser oriunda de uma separação foi algo que marcou muito a minha consciência e que me prejudicou muito sim, pois nunca consegui “resolver” isso dentro de mim. Até hoje ainda me machuca pensar no meu pai que não vejo desde 1993. Portanto, acho muita graça anúncios de camisinha e tudo mais, mas os pais, que são os únicos responsáveis mesmo pelos próprios filhos, estes muitas das vezes (por ignorância, estupidez, medo ou preconceito) sequer se acham na obrigação de fazê-lo! Minha mãe até hoje acha que nunca foi obrigação dela em conversar comigo sobre sexo…

Bem, minha gravidez foi bem tumultuada e problemática. No início ‘recusei’ a idéia de ter meu filho. Tinha um medo terrível! Medo de nunca mais poder concluir meus estudos, de ficar com o períneo ‘estragado’ (como minha mãe falava do dela mesma, pois se arrebentou no parto normal), de ter um filho doente, de nunca mais ter meu corpo esbelto de volta, entre outros pensamentos estranhos. Foi uma fase difícil e mais difícil foi superar isso tudo sozinha!

Lá por volta dos 6 meses tudo se acalmou… Começei a amadurecer e a aceitar meu filho dentro de mim. Começei a ler a respeito de gravidez e queria mais informação a respeito. Meu coração revoltado começou a amolecer e a aceitar minha nova condição como ser humano: mãe.
Uma tarde de páscoa num domingo tranqüilo de abril…

Estava tentando cochilar após uma refeição mais consistente, estava há 2 meses só comendo sopa e sem sal para controlar o peso e a pressão, senti uma dor muito forte no ventre. Estava sozinha em casa. Já havia pago as prestações do parto (paguei como se fosse cesariana, pois o valor era mais alto e não quiz deixar pra última hora, se fosse o caso… Não tinha plano de saúde e tinha pavor de hospital público) e estava praticamente tudo organizado pro bebê chegar. Sempre pedi informações sobre o parto normal ao meu gineco, mas como disse anteriormente, ele sempre vinha com a ladainha: “a mulher sofre muito e você é muito jovem…” Fiquei com medo, claro.

Fui ao banheiro e vi sangue na calcinha e decidi ir pra Maternidade, pois havia ido 2 dias antes num alarme falso e achei que esse não seria, e não queria mesmo ficar sozinha em casa correndo o risco de ter o filho sem ajuda. Peguei a bolsa e fui a pé até a esquina de casa chamar um taxi. No taxi mesmo começaram a ficar mais fortes as contrações. Fui encaminhada na Maternidade ao meu quarto a esperar o meu médico. Mudaram minha roupa, começaram a me raspar, mas ninguém parou pra conversar comigo ou perguntar como eu estava ou o que sentia…

Fiquei momentos sozinha na cama do quarto pensando comigo mesma o que estava acontecendo, pois aquilo não estava parecendo um parto. As dores aumentaram e começei a chorar e chamar a enfermeira. Elas vinham, diziam que o médico estava chegando e iam embora. Fiquei assim por algumas horas. Daí o médico chegou no momento em que sentia as dores, fez o toque e disse que eu só tinha até então 3 dedos de dilatação e que isso não era suficiente para o início de um parto, etc. Precisaria esperar mais até mais de 7 dedos (?) e doer mais! Agüentei o quê pude, mas chegou um momento em que começei a sentir falta de ar e a ficar tonta. Ninguém monitorou meu bebê ou coisa assim e sequer estava com soro. Sabia que isso já deveria estar acontecendo naquela altura! Nada.

Em seguida veio o médico e me perguntou se eu queria fazer a cesariana… Fiquei em dúvida e no estado lamentável em que estava não tinha condições de pensar! Acho hoje que isso foi até maldade por parte dele para comigo quiçá uma grande insensibilidade moral. Aliás, hoje tenho CERTEZA disso, pois fiz a asneira de ter meu segundo filho também com esse mesmo médico…

Após minha indecisão ele decidiu (!) por mim em fazer a cesariana e me encaminhou imediatamente ao centro cirúrgico. Ora, dali então passou tudo a parecer mais com a idéia de parto que eu tinha até então. Fui para a sala de cirurgia onde recebi soro e anestesia. Alguns aparelhos me monitorando e tudo mais. Eles fizeram meu parto ouvindo ao jogo de Vasco e Botafogo… O único que foi doce comigo e puxou conversa, certamente para me acalmar, foi o anestesista. Meu filho nasceu justamente no gol do Vasco… Até hoje me senti desreispeitada por isso, mas como iria reclamar? Como uma mulher atada à uma cama, anestesiada, tonta e mal podendo falar vai poder fazer-se entender e EXIGIR que o maldito do rádio para de fazer barulho!!!

Me entupiram tanto de remédios e entorpecentes que após ver meu filho na sala de parto e ser bruscamente separada dele por mais de 12 horas, tive de enfrentar uma “noite” de horrores com todo o meu corpo em “coma” devido a tanta porcaria dentro de mim! Tinha uma dor de cabeça horrível e vomitei mais de 2 vezes, não consegui separar realidade de imaginação e tentava falar mas não podia. A dor de cabeça, o enjôo e a sensação de desorientação que tive foram tão fortes que ainda sinto-me mal só em recordar isso! Um horror.

Amanheceu. Encontrei-me enfaixada em torno da minha cintura e senti a dor do corte no ventre. Me lembro de ter ido ao banheiro com a ajuda de uma enfermeira nessa hora, pois sequer consegui levantar sozinha ou andar sem amparo devido a dor e a cirurgia. Ao me dirigir ao banheiro vi, do lado de fora da porta do meu quarto, uma mãe com seu bebê recém nascido ao colo e passeando com o mesmo pelo corredor… Meu Deus! Como desejei estar como ela naquele segundo… Senti-me um lixo naquela hora. Perguntei à enfermeira como ela conseguia andar com o bebê e a mesma disse que a moça havia tido parto normal quase no mesmo período que eu. Só que eu só iria conseguir fazer aquilo, isto é, passear tranqüilamente com meu bebê ao colo, somente 2 meses depois do parto!!!

Trouxeram Bernardo…

Tão pequenino, apenas 2,430kg e ainda teve de ficar na encubadeira, dizem eles, por problemas respiratórios. Graças a Deus havia me esclarecido bastante a respeito da amamentação e havia decidido que iria amamentá-lo ao peito até quando ele quisesse! Isso ninguém tirou de mim ou do meu filho. Amamentei ao peito e acho que isso me ajudou muito psicológicamente, fisicamente, emocionalmente e até espiritualmente. Tive depressão pós-parto (hoje sei e reconheço o que fôra aquilo, pois na época nem o gineco sabia…), mas consegui superar com a ajuda do meu próprio filho e da amamentação ao peito.

Não senti meu baixo ventre por 2 anos após o parto. Era tudo “dormente”. Um dos pontos inflamou após a retirada dos pontos e isso foi traumatizante, pois ficava aquele pavor de terem de me abrir denovo a barriga! No primeiro mês após o parto praticamente não andava. Só comecei mesmo a poder fazer as coisas após 1 mês e meio… Fiquei muito traumatizada com o parto todo em si e acho que não foi uma das melhores experiências que tive em minha vida. Acho que foi desumano.

Apoiar e fazer com que vosso site seja reconhecido é uma tarefa de cada mulher que visita o mesmo. Tenha ela tido uma boa experiência ou não. Espero sinceramente que essa situação calamitosa no Brasil possa melhorar dentro de poucos anos, pois o que há hoje para a maioria das mulheres não se chama parto, mas desumanidade. Não tive meu parto em hospital público (2 histórias horrendas eu contaria sobre duas pessoas que conheço, também adolescentes grávidas na época, mas não devo, pois faz parte da vida delas. O que posso é tentar mandar o link do site para as mesmas), mas numa Maternidade particular e com médico particular, isto é, com pessoas que, veja bem, TALVEZ, tivessem mais “interesse” em oferecer algo de qualidade à mulher. Isso parece não existir ainda em nosso país. O que existe é a preocupação com o dinheiro, mais nada. Nem a vida de mãe e filho são levadas em consideração.

Hoje moro na alemanha, onde cesariana soa palavra de outro planeta por aqui. Todos a quem conheço nasceram por parto normal e os 2 primeiros filhos de meu atual esposo nasceram aqui nesta casa onde moramos. Nosso primeiro filho, como já disse, nasceu no Brasil, mas isso é outra história…

Aqui há uma consicentização e um apoio à mulher que nunca havia visto e o homem, inclusive, tem uma consicência ímpar sobre todo o processo em si. Um exemplo que o Brasil deveria copiar, pois parece que por lá já não sabem mais trazer ao mundo bebês com amor.

Sonho ainda em ter uma menina. Sonho ainda em tê-la por parto normal. Não sei se ainda realizarei esses sonhos, mas uma coisa é certa, não me arrependo mais de nada do que vivi até hoje. E ser mãe é uma dádiva divina que deve ser respeitada por todos. Começando pela própria mulher! Recuse ser ignorada, mal tratada ou mal atendida numa Maternidade ou pelo seu próprio gineco, eles não têm esse direito! E se você está grávida e leu meu depoimento procure seu pediatra por aqui mesmo ou se informe bem melhor e sem medos, leia as histórias e faça de tudo para que nesta parte do site, cada vez mais, histórias de partos felizes possam ser publicadas.

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